O AUTISMO NAS NOVELAS, NOS CONTOS E NA VIDA REAL
O professor - não foi seu pai... me chamou por telefone...que acredita em você? Ernesto – Creio que de meu medo, senhor. Silencio. Ernesto se há ido longe em direção sua mãe. Fecha os olhos para vê-la melhor. Livro- Chuva de Verão, de Marguerite Duras.
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Por que ensinar a criança a ser feliz é uma missão quase impossível? A vida humana sem sombra de dúvida e um sonho, como destacou o escritor Calderón de la Barca num texto teatral. Ao cometer inúmeros erros como pai de uma criança autista, percebi que o homem é moldado na infância, aperfeiçoado na adolescência e cristalizado na idade adulta. Percebo estreitos limites que contêm as faculdades intelectuais de Gustavo, e que a existência humana é efêmera. Os desenhos e traços do Gustavo são figuras que estão nas paredes e mi aprisiona no seu silêncio, me calando. Uma criança só se desvia do caminho quando é educada com base nos interesses individuais dos pais. Aprofundei-me no tema do autismo com ardor crescente – mas a realidade é demasiada cruel e machuca minha alma. Nem os livros, nem as obras de arte, nem DEUS revelam certos mistérios.
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Para compreender o mistério do autismo é preciso viver com uma criança autista para olhar o mundo da maneira que ele escolheu. Se nos eximimos disso, não podemos compreender um ser humano diferente. Um menino autista não é um anjo e nem um troféu que nasceu para brilhar. Isso é um mito. O que é ruim para es ruim para um adolescente autista. O autismo de meu filho veio acompanhado de alucinações como vozes (tapa o ouvido porque escuta vozes) como de visões.
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Sobre o que fala o livro a “Chuva de verão” de Marguerite Duras? Sobre a linguagem e autismo. Diz-se, cala-se, paira em torno do inominável, reconhece-se que as palavras não bastam, continua a procurar, desajeitadamente, uma forma de se aproximar dos outros. Aos 76 anos Marguerite Duras escreveu Chuva de Verão, romance onde o entorno é povoado por crianças que vagueiam num abandono terrível, feroz, pero amoroso. Um amor escuro e claro, sim barroco. Duras sabe descrever desses amores. Uma casa, num subúrbio de Paris, habitada por sete crianças e seus pais. Adultos que recolhem livros do lixo e mergulham, apaixonadamente, na leitura de uma biografia. Pais que roubam em livrarias baratas, que bebem até se perderem no caminho de casa, uma casa onde esperam sete filhos que são uma presença perturbadora, estranhos, um mistério, a fonte de toda ansiada. “Com crianças nunca se sabe”, diz a mãe. Existe algo mais desestabilizador do que não ter nome próprio? Ter muitos é igual a não ter nenhum? Tudo é assim neste livro de Duras. Tudo é uma coisa, mas também outra e possivelmente nenhuma das duas. Um romance que funciona como um enigma sem solução, mas, ao mesmo tempo, transmite a sensação de que se compreendeu. Que? Não é possível dizer.
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Uma história de família. Imigrantes que chegaram a Franca e estão 3 fora do mercado de trabalho. Ernesto, um menino tão maluquinho como o escritor Ziraldo que descobre que sabe ler sem ter aprendido. Como meu filho Gustavo que se recusa a ir à escola porque lá lhe ensinam “coisas que ele não sabe”. A história de como essa discussão passa por seus pais, por seu professor, por seus irmãos, por toda Franca. Uma família repleta de abandonos, medos, silêncios e conversas. Um bando de loucos que contam histórias e perguntam coisas uns aos outros e, finalmente percebem a inutilidade das palavras. Para um menino autista as palavras são inúteis. Cordialmente moram num mundo cheio de terrores, medo e desespero, mas também de aceitação e celebração. De risadas. Um mundo poeticamente belo pero terrível. Vivo. Uma história dos livros que me devolve os momentos que fui feliz em minha pequena biblioteca na casa de meus pais em Lagoa da Prata. Uma história dos livros (roubados, queimados, perdidos e recuperados) e uma história de leitura. Não surpreende – Chuva de Verão - é a história de dois irmãos que batalham, sucumbem e passam por um amor pesado, denso e profundo. Marguerite Duras renova meu prazer da leitura (Iniciado no Colégio Municipal em Lagoa da Prata pelo professor Otaviano de Oliveira). Com sua prosa telegráfica, com uma encenação de diálogos perfeitos, com sua maneira especial como meu filho autista de não dizer, de cercar as coisas, de margeá-las com palavras. Duras como Gustavo sempre lutando e se deixando vencer pelo único amante, pelo melhor inimigo: a linguagem.
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A rigor, não há uma definição clara do que é autismo. Não é o autismo que provoca o caos na sociedade e, o sim o sistema que impacienta as injustiças, as inadequações, as desigualdades, ninguém cobra do sistema e, sim, do seu semelhante.

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